Abril, 1997.
A noite estava fria demais, não sei se pela neblina, pelo couro sintético do casaco, ou se era por medo mesmo. Só sei que estava muito mais frio. Senti cada passo ao caminhar, como se tivesse coturnos de vidro. Devo ter levado meia hora para andar pelos 500 metros que me separavam da cafeteria.
Me pareceu uma eternidade. Tudo permanecia frágil, em todo lugar.
Eu não tinha certeza de que eles viriam, mas sabia do que eram capazes.
Pedi um café preto e sem açúcar, que a vida também não estava muito doce. Era como um brinde egoísta. Não lembro para onde fui depois, só sei que saí em busca de algum calor.
Eu tinha medo. Na sua mais pura forma, medo. Eu já sabia quem eram eles, e com que armas atacavam. E sabia principalmente com quais se defendiam. Até hoje sei.
Uma palavra tem muito mais valor que uma arma de fogo, mas não podia trabalhar com a perspectiva de um prazo longo. Precisava de uma palavra tão veloz quanto uma bala. E igualmente letal. Era essa a língua que eles falavam.
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