1980.
Que aquele seria um inverno atípico, poucas pessoas tinham dúvida. Mas as vias de fato, poucos presenciaram. Foram três meses de frios semanais intensos, matizados com pequenos verões vesperais, quando o sol fulgurava imponente pelas varandas de toda a cidade.
Ela adorava o perfume das azaléias em floração na metade do inverno e o vento gelado das auroras de assistir abraçado. Ele tocava baladas de rock para se divertirem aproveitando o sol no gramado que tinha vista pro rio Guaíba. As coisas andavam tão belas que, se o verão não se apresentasse de novo, não faria diferença.
Tinham um ao outro - e não havia muito mais que precisassem além disso. Sabiam que precisavam pensar no futuro, mas não pensavam. Não importaria o que viesse - ambos tinham a certeza, sem precisar de palavras, que dariam um jeito. "O importante é ser quem somos!", dissipava ela a firmeza do amor que os unia.
"Nós vamos viver para sempre", ele dizia. "E vamos ser jovens e vamos viajar e vamos ouvir rock e vamos nos amar por todo o sempre pelo mundo a fora!", fechava os olhos, voltava a se deitar na grama e abraçava a recém esposa.
Colocava uma flor na orelha dela, ela sorria em resposta. "Eu te amo, e preciso de você para sempre em minha vida!", diziam um ao outro sem a necessidade de proferir oração alguma. Juraram objetivos de gente jovem: nunca cair na rotina, sequer ter o mesmo jantar todas as noites. Abolir programas de TV. Ir ao estádio de futebol juntos. Quando brigassem, desculpar-se-iam antes mesmo de por a cabeça no travesseiro. Dominar o mundo.
Passeavam pelo parque, tomavam sorvete e riam como se cada ano que passava trouxesse a necessidade de conquistar um ao outro novamente. Nas noites mornas dos verões momentâneos daquele inverno, ele repousava a cabeça em seu colo, ela o abraçava e cantava belas músicas. "O mundo pertence a nós!"
E os dois sabiam que tudo estava bem.
Afinal tinham um ao outro - e não havia muito mais que precisassem além disso.
3 comentários:
Hail o/
Que fofo, muito... ideal.
Coisas ideais sempre são as melhores, não é?
Apesar de nunca conseguir imaginar direito a parte da neve...
bjs
PPP
esculpindo com palavras a propria historia... mal te conheco mas tenho a impresao que voce e' o tipo de pessoa que seja oque faz, faz bem feito, o tipo raro, o tipo em extincao.
E sabiam que o infinito é uma idéia.
Muito bom!
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