segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Tudo bem

1980.



Que aquele seria um inverno atípico, poucas pessoas tinham dúvida. Mas as vias de fato, poucos presenciaram. Foram três meses de frios semanais intensos, matizados com pequenos verões vesperais, quando o sol fulgurava imponente pelas varandas de toda a cidade.

Ela adorava o perfume das azaléias em floração na metade do inverno e o vento gelado das auroras de assistir abraçado. Ele tocava baladas de rock para se divertirem aproveitando o sol no gramado que tinha vista pro rio Guaíba. As coisas andavam tão belas que, se o verão não se apresentasse de novo, não faria diferença.

Tinham um ao outro - e não havia muito mais que precisassem além disso. Sabiam que precisavam pensar no futuro, mas não pensavam. Não importaria o que viesse - ambos tinham a certeza, sem precisar de palavras, que dariam um jeito. "O importante é ser quem somos!", dissipava ela a firmeza do amor que os unia.

"Nós vamos viver para sempre", ele dizia. "E vamos ser jovens e vamos viajar e vamos ouvir rock e vamos nos amar por todo o sempre pelo mundo a fora!", fechava os olhos, voltava a se deitar na grama e abraçava a recém esposa.

Colocava uma flor na orelha dela, ela sorria em resposta. "Eu te amo, e preciso de você para sempre em minha vida!", diziam um ao outro sem a necessidade de proferir oração alguma. Juraram objetivos de gente jovem: nunca cair na rotina, sequer ter o mesmo jantar todas as noites. Abolir programas de TV. Ir ao estádio de futebol juntos. Quando brigassem, desculpar-se-iam antes mesmo de por a cabeça no travesseiro. Dominar o mundo.

Passeavam pelo parque, tomavam sorvete e riam como se cada ano que passava trouxesse a necessidade de conquistar um ao outro novamente. Nas noites mornas dos verões momentâneos daquele inverno, ele repousava a cabeça em seu colo, ela o abraçava e cantava belas músicas. "O mundo pertence a nós!"

E os dois sabiam que tudo estava bem.

Afinal tinham um ao outro - e não havia muito mais que precisassem além disso.

3 comentários:

Hendrio disse...

Hail o/

Que fofo, muito... ideal.
Coisas ideais sempre são as melhores, não é?

Apesar de nunca conseguir imaginar direito a parte da neve...

bjs

PPP

Unknown disse...

esculpindo com palavras a propria historia... mal te conheco mas tenho a impresao que voce e' o tipo de pessoa que seja oque faz, faz bem feito, o tipo raro, o tipo em extincao.

Nilson Vellazquez disse...

E sabiam que o infinito é uma idéia.

Muito bom!