"É complicado não ter chão, man", dizia Lívia à Ricardo, enquanto tomavam um café no centro da cidade, num final de tarde. Eram amigos há uma década e meia. "Como assim?", perguntou Ricardo, confuso e surpreso com a afirmação. Ela vinha se sentindo muito diferente já havia um tempo.
"Eu tinha o mau hábito de criticar gente que não tinha planos", Lívia começou a explicar. "Achava que eram uns inúteis, ora essa, que absurdo não esperar nada do futuro. Achava que essas pessoas não entendiam nada da vida e que todas elas iam cair um dia. Preferia pensar muito, muito alto, coisas praticamente inalcançáveis". Tomou um longo gole de café, Ricardo à frente atento às palavras da amiga. "E de repente, num dia de sol, vi que não tinha mais nada", continuou, olhando para a xícara com o logo do Café Avenida.
Ricardo ajeitou-se na cadeira. Lívia sempre fora admirávelmente inteligente e perspicaz. Continuou descrevendo o desengano: "Eu não sei se isso é algo natural ou não, mas não tenho mais planos de nada. No máximo, de sair no final de semana ou de dormir oito horas numa noite. Não sei até que ponto é ruim ou bom, nem reclamo, mas me é ainda difícil acostumar em viver por viver."
"É tranquilo, traz até uma certa paz de espírito. Levantar, respirar bem fundo, caminhar devagarinho, não importa pra onde, mas caminhar. Deixar as coisas acontecerem como tem que acontecer, sem pressa. É aquela sensação, não sei se você já sentiu, de não ter nada mais para carregar consigo, só suas virtudes e sua experiência. Sensação de não saber nada do amanhã. Eu sei que a vida tem disso, e até acho que logo estarei bem adaptada."
Ricardo a observava atônito. Lívia não havia, de forma alguma, ficado menos inteligente, ou louca. Era apenas ela mesma se deixando respirar. Deixando a porta do coração entreaberta, só o sol entrando de leve. Nada de guarda alta nem cadeados e trancas. Só deixar o vento passar, o sol entrar. Que esfrie, que queime, que o inferno venha à Terra.
"Acho que agora minha ambição é a liberdade, não tenho muito mais anseios. Sei que quero ser eu mesma sempre, venha o que vier. Isso é não ter chão. É não saber se vai ter onde pisar amanhã, mas ainda assim acordar e tentar colocar os pés no chão", concluiu a garota, terminando o café.
Os dois conversaram mais algumas trivialidades, pagaram a conta, despediram-se0 e cada um rumou para seu apartamento. Lívia tranquila, com a cabeça baixa, meio sorriso no rosto, inteira paz no coração. Ricardo pensativo, rememorando cada palavra da amiga. Havia razão em toda sua loucura, e havia muita loucura em toda aquela razão. Era natural.
Tarde da noite, Ricardo ia dormir, ainda calado, porém irrequieto com algo que Lívia dissera. Num sorriso de quem vê sempre um diamante na lama, ouvira da garota: "Mas acontece que eu tenho os pés na terra, e a cabeça láááá na lua!".
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